quarta-feira, 31 de março de 2010

Cabralina


Salvador Dalí - Galatéia das Esferas


W. H. Auden
(1905-1973)

Se morre da morte que ela quer.
É ela que escolhe seu estilo,
sem cogitar se a coisa que mata
rima com sua morte ou faz sentido.
Mas ela certo te respeitava,
de muito ler reler teus livros,
pois matou-te com a guilhotina,
fuzil limpo, do ataque cardíaco.

(João Cabral de Melo Neto)



Entre mim e ela

A morte mata do que ela quer.
Mas tentarei convencê-la:
chegar consciente, partir sonhando
flutuando em travesseiro.
Aspirar, por via das dúvidas,
poesia e cheiro
de um tudo que aqui vivi.
Ser queimada, virar cinzas
espalmada à toda sorte.
Seguir passarinho:
[só sucumbir à morte]
sumir em revoada.

(Lou Vilela)

9 comentários:

Lucão disse...

Coisa mais bonita! ;)
Convença a minha morte tb!?
Com vc falando assim ela vai se convencer. Sério!

Obrigado por me dar a chance de ler tanta coisa boa, Lou!

Assis Freitas disse...

Vou repetir o que disse no maria clara: Lou, essa Cabralina é um diálogo e tanto. Além de Cabral senti na última estrofe ecos do passarinho de Quintana. Show. Beijo

Mai disse...

E quando ela chegar e nos matar do que quiser, nos restará re_voar imortais nas asas de um poema qualquer. bjo e Boa Páscoa, Lou.

BAR DO BARDO disse...

Voar... Sim, à brisa gentil...

Lou Vilela disse...

Lucão, seu comentário reverbera gentileza. ;)

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Assis, sinto-me lisonjeada. São grandes referências!

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Belo, Mai! Assim seja!

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Henrique, li em seu blog que irá se ausentar. Espero que esteja tudo bem e que a sua ausência seja breve, viu?!


Um grande abraço a todos,
Lou

Sylvio de Alencar. disse...

Aprecio J.C.M.N.
'Sumir em revoada'... Bom.

Abrçs.

João Lenjob disse...

Acho que fui espalmado à toda sorte hoje. Que blog bacana e que blog lindo!!! Aguardo você no meu. Virei seu seguidor também. Abaixo um dos poemas encontrados por lá.

João Lenjob
http://lenjob.blogspot.com

Predicativo
João Lenjob

Acordo em metominia
Vivo em prosopopeia
E durmo poesia
Te amo em soneto
Te conquisto em prosa
Te caso em conto
E em romance te vivo
Te quero em versos
Te faço em rimas
Te dou um sujeito
Te quero meu predicado
Te encho de predicativos
Sinto-te intenso um adverbio
E aprecio teus adjetivos
E quando te conheci percebi:
Eras a minha somada conjunção.

Marcantonio disse...

A morte me mata por cotas:
me lisonjeia, me corteja,
Oferecida!
Faz grafites com giz poroso
Nas paredes do meu corpo.
Envia pombos-correios
Aos meus quintais.
E remete anúncios aos meus amigos
Para que não os surpreendam
Os nossos esponsais.

Ianê Mello disse...

Lou,

a cada vez que aqui retorno encontro sensibiliddae e beleza, aliadas à uma grande força poética.

Gostaria muito de contar com a sua visita em meus blogs, pois há muito aprecio seu trabalho e gostaria que conhecesse o meu.

Gostaria, inclusive de convidá-la a particiar dos " Diálogos Poéticos", do qual fazem parte a Lara Amaral e outros excelentes poetas da blogosfera.

Se desejar, mande-me seu e.mail. Terei imenso prazer em recebê-la.

Beijos.