quinta-feira, 18 de março de 2010

Quero passagem!

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Dê licença, seu moço,
quero passagem.
Preciso trabalhar,
tenho mulher e filhos
para sustentar.

Já perdi um par de rebentos
na luta contra a malvada,
não tinha comida, nem doutor,
apenas, a minha enxada.

Quando estou no roçado,
tonteio sem sentidos
[é o sol na moleira
castigando os destemidos]:

vejo uma vida melhor,
no prato, farinha, arroz e feijão,
escola para os que vingaram,
quem sabe até água no chão?;

vejo a Maria sorrindo
com os dentes todos na boca
e a roda da viola mudando
de uma rima para outra.

Quando o sol se vai, seu moço,
e a moleira esfria,
percebo que era, apenas,
mais uma de minhas poesias.

Que vida é essa, seu moço,
nós temos destino traçado?
[morrer de fome ou viver
desesperado?]

O que me entristece, seu moço,
é lutar noite e dia
para ver os filhos crescerem
e herdar do pai sua sina;

o que me entristece, seu moço,
é ter o tal destino traçado
pelas mãos de muita gente
que sequer pegou num roçado.

E ainda falam, seu moço,
que o problema é da região,
pensam que essa história convence
matuto que lida com o chão.

Se esse povo estudado
aprendesse com a gente
a cuidar de sua terra
e a zelar pelos seus...

Se esse povo estudado
aprendesse com a gente
a plantar p’ra colher
e a ter vergonha na cara...

eu botava, seu moço,
um dia, no prato,
farinha, arroz e feijão;

trabalharia satisfeito
com o sol na moleira
e os filhos na escola,

com a minha Maria desdentada
dando gargalhada
para um futuro melhor.


Lou Vilela



* Poema escrito originalmente em março/08. Republicado com pequenas alterações.

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8 comentários:

Lucão disse...

Poxa, Lou!
Um lindo protesto
ou uma bela história em verso muito bem versado.

Gostei por demais
:)
Parabéns, linda
beijo

Mai disse...

De sol a sol, um homem do campo e um belo poema feito de terra e sementes. Espaço para o plantio e a colheita, Lou.
Muito bom!
Abraços

Mirse Maria disse...

Parece leve, mas é forte e tem tudo a ver com nossa gente!

Lindíssimo, Lou

Beijos

Mirse

J. disse...

Muito bonito! Uma denúncia, uma revolta, uma realidade, infelizmente.
Parabéns, Lou.

Beijos.

Assis Freitas disse...

Abre alas para os versos de Lou que marcham solidários. De algum modo Quero passagem me levou ao Operário em Construção do Vinícius. Cantos que se amalgamam. Quero passagem, digo eu, para me alegrar com o poema ali do lado - Quem disse... - que vc eterniza aqui no blog. Beijo

evandro mezadri disse...

Belíssima poesia de cunho social, importante sempre falarmos de assuntos que toquem a sociedade.
É sempre um prazer em te ler, Lou.
Grande abraço e sucesso!

Marcelino disse...

Cara, que belo texto. Achei mais legal ainda porque vc não tentou usar o falar dito caboclo ( tar por tal, iguar por igual, etc.), acho uma atitude de respeito até em relação às pessoas, além do que, conserva o teu discurso e mostra tua preocupação com o social.
Parabéns.

Lou Vilela disse...

Meus caros (Lucão, Mai, Mirse, Juli, Assis e Evandro):

Agradeço pela presença e pelo carinho. É sempre um prazer recebê-los aqui. ;)

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Marcelino,

Alegra-me que tenhas gostado. Bem-vindo, meu caro!


Abraços a todos,
Lou