quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Entre o ninho e o voo

desde que o ventre explodiu
as horas que foram parecem distantes
de silêncio em silêncio, o peito chove
as mães são sós

Lou Vilela







Foto: ShutterStock

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Balada para o amor IV

o que se ama pudesse
a engrenagem da vida
movimentar

o mundo vibrasse
instantes
factíveis
jogos de encaixar

Lou Vilela

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

quando somos ausência

a casa vazia outrora chamada lar
come em silêncio suas plantas daninhas

hora fugaz quando julgávamos
todos postos à mesa
que a terra era fértil

Lou Vilela

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Propagação

expandir
permitir-se lasso
o encanto a acústica
das conchas entreabertas

Lou Vilela

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Calendário II


Todo mês seria a_gosto, 
pudesse a palavra.

Lou Vilela



* Publicado no livro Agenda da Tribo, ed. 2016/2017.

Frida

que prisão te pariu
coluna-escafandro
tinta febril?

Lou Vilela

*Publicado no Livro Agenda da Tribo, ed. 2016/2017.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Quando o encontro é ainda incerteza

a referência não é a mesma
: o córtex, as águas, os sentidos...
nada mais se ajusta

os buracos pousam tão profundos
de não se alcançar, de surfar encostas 
o que eclode não se [a]firma

Lou Vilela

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Portinari

meninos na gangorra
os nossos do dia a dia
tanto o que aprender

além dos bancos da escola
necessária alegoria
acordes mistos tinindo
expressionismo sem par

tu os coloca no ar
nós os vemos passarinhos

Lou Vilela




* Meninos na Gangorra, de  Portinari  - 1939. Acervo digital ©Projeto Portinari

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Íntimo

é você que sinto
quando me [re]traio

Lou Vilela

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

portal

quando abriu o portal das coisas perdidas
o frio e a navalha de passos indivisíveis
houve o mar e os botões de acender pirilampos
aqueles cobertores de pés silenciosos

Lou Vilela

sábado, 26 de setembro de 2015

poesia completa

para Manoel de Barros

toquei a capa
a beleza das gravuras
as palavras  neotessituras
e foi assim: eu voei
cada infinito um assombro

lou vilela


quando existimos

 Fátima Queiroz

há um hálito azul-presente
em todas as preces

à deriva, corpos tingidos

lou vilela

[Arte: Fátima Queiroz]

terça-feira, 22 de setembro de 2015

havia

havia o toque
a palavra o aceno
a sutileza incabida
um sinal

havia vontade

lou vilela

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

esse todo

gosto
quando vens
quando tocas
do teu modo

quando invades e
e
   s
      c
         o
            r
               r
nu teu peito

quando suo
quando soo
[im]perfeito

lou vilela

terça-feira, 7 de julho de 2015

Bacante

embriaga-te, pois!
eis o enigma:
a vida é breve;
a sede, tamanha.

Lou Vilela


* Um dos poeminhas escolhidos para publicação no Livro da Tribo - edição 2016/2017. Felicidade imensa participar desse projeto que tanto admiro, ao lado de muita gente querida!

sábado, 21 de março de 2015

balada para o amor II

inventa-se
em todo instante
em outros passos
entre  amantes
entre mistérios
em alguns brinquedos
em si em vão

atreve-se
em cadafalso
em algum segredo
entre  abraços
entre seus medos
em muitos credos
em sol em dó

deleita-se
em carne viva
em pesponteio
entre meus lábios
entre seus dedos
em contradança
em mi(m) –- maior

lou vilela

sábado, 14 de março de 2015

Deslizes

aos sábados, escrevia àquela moça
: lupa verde, absinto, um bem querer
mal sabiam rijos dedos calejados
deslizes de aninhar e amanhecer

todavia, empena-se orgulho
por tal magia florescer
chão que arde, sol ferino, reluzente
profunda vontade de chover

Lou Vilela

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Codinome Bouganville

o conflito entre alma e corpo
soubemos: ele não resistirá

como se resistíssemos nós, os não aca[l]mados 
como se não morrêssemos aos poucos 
a cada pílula
de uma vida pretensiosa

Lou Vilela

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Bacante II

ficou aquela sensação
a de sentir na garganta
o travo, a tez, sua ranhura
um último gole–poema
nu[m]a noite sem mesuras

Lou Vilela

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Balada para o amor

começasse assim
um quase
bem querer
e o tempo amalgamasse
nossas vidas

Lou Vilela


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Poema de aproximação

alegra tamanha transparência
daquilo que não cabe e reflete
poesia

alegra o que toca
na passagem do olho
e compõe a alma

a lucidez da língua a força
o signo a porcelana a boca
semiaberta essa flor
que sangra
e fere

Lou Vilela

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Engenho Santana

o pensamento sopra sem medida
feroz, em riste, vento a galopar

assombro, horizonte, seus bichos
: mulheres e homens partidos 
produtos de um outro lugar

sabem-se fome, espanto, sonhos caudalosos
em plácida mina d'água pra refrescar
buscam sinais, toques, sons do campo

nu[m]a terra de se plantar em canto 
vida que se colhe, poesia que não se perde
algo latente que insiste enramar

Lou Vilela

sábado, 31 de janeiro de 2015

Todas as falas

éramos de início todas as falas
até transbordarmos -- essencialmente pele
então fomos mais, lugar inabitado

ouvimos: “o mundo acabará”
fát[u]o, o nosso acabou:
vontade, êxtase, silêncio

Lou Vilela


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Nua

a lua entre aspas
vagueia pelas ruas
copula acha graça
afronta sem mesuras
mistura toda a raça

Lou Vilela

sábado, 3 de janeiro de 2015

Signos

um céu
cem sentidos
entre nós

Lou Vilela