segunda-feira, 7 de junho de 2010

Dialogando com Miró


 Quatro horas e um minuto


Quatro horas
Quatro ônibus levando vinte e quatro pessoas
Tristonhas e solitárias

Quatro horas e um minuto
Acendi um cigarro e a cidade pegou fogo.

Cinco horas Cinco soldados espancando cinco pivetes
Filhos sem pai
E órfãos de pão

Cinco horas e um minuto
Urinei na ponte e inundei a cidade
Sei horas
O Recife reza
E eu voando pra ver Maria


Sob a ponte
(Lou Vilela)

Esperei na ponte
o Capibaribe passar
desviei de curso
cantei toadas ao luar...

Passou a menina com a cara borrada
o bêbado o assaltante
a fome a miséria
fezes misturadas aos sonhos.

Anoiteci espanto!

Tudo me pareceu assustadoramente tão belo
: a lua a coruja o canto a mortalha
até os cravos amarelos.

Estava inundada!



* Texto originalmente publicado em 14/10/09. 
** Imagem de arquivo pessoal - VII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.




20 comentários:

Adriana Karnal disse...

Lindo + lindo= aodrei demais linda!

nina rizzi disse...

nossa, depois de uma carga poética dessas, lou, a gente vai sentir sua falta. belíssimos os dois poemas. doídos, reais, pungentes.

beijo no zóio.

Úrsula Avner disse...

Oi Lou, os dois poemas são ricos em lindas e bem elaboradas metáforas. Gostei muito. Bj.

Kanauã Kaluanã disse...

E tua poesia é constante inundação...
"Vi" este(s) poema(s) pelos rostos das ruas, em letras que saltavam das pontes, em meninos de águas usadas que se banhavam nos canais.
Eu "vi" este(e) poema(s) tão nítidos...

[Lou, que pena não te ter visto pela Bienal.]

Wilson Torres Nanini disse...

Muita poesia para ser espanto... Há de ser ouro e feitiço! Abraços.

Pedra do Sertão disse...

Olha, só, menina, em sua visita ao Pedra do Sertão, você comentou de um poema seu...agora sou eu, dialogando também, depois posto com foto e tudo. O meu recupera a Ponte Metálica (Ponte dos Ingleses), local dos sonhadores, hippies, poetas, viciados em pôr-do-sol...

abração...

Graça Pires disse...

Dois poemas lindíssimos, mutuamente se alagando.
Um beijo.

Adriana Godoy disse...

Demais, Lou...definitivamente gosto de seus poemas. Beijo.

Mirse Maria disse...

Ai que vontade de ver, conhecer o meu Recife, cantado nesses seus lindos versos, Lou!

Voltarás em pleno horário de verão.

Beleza os dois poemas

Beijos

Mirse

Talita Prates disse...

Gostei muito de ambos.

Bjo grande, poetisa.

guru martins disse...

...PAGÃ!!!

bj

Nydia Bonetti disse...

Que imagens, Lou... Apesar de tudo,cantar toadas à cidade que de tão real, parece sonho. Lindo.

Marcelo Novaes disse...

Lou,


Pintar a quatro mãos muitas vezes dá Mural.


Foi o caso.



:)






Beijos,









Marcelo.

dade amorim disse...

Demais, Lou, de inundar a gente.

Beijo e obrigada ela mensagem.

Jorge Pimenta disse...

há momentos em que não basta esperar; é preciso procurar... nas ruas, nas portas, nas pontes, mas, sobretudo, nos rios que sob os seus tabuleiros estendem alvoradas para lá dos montes e para cá do coração humano. a resposta há-de surgir algures. num cravo pousado no cano da metralhadora ou simplesmente no sorriso de uma criança.
um beijo!

Ianê Mello disse...

Linda, linda!

Tem um selinho pra vc em meu blog " Diálogos Poéticos".

Bjs

Vieira Calado disse...

Um belo retrato

do tempo que vivemos!

Beijoca

Carol disse...

Que lindo!
é...
quando a gente ama tudo fica belo.
Gosto de amar, e não precisa ser a um alguém, gosto de amar a vida que faz a gente ficar assim, docemente apaixonado...

Assis Freitas disse...

encontro de poemas sobre desencontros, belos

cheiro

Lara Amaral disse...

Dois poemas que vão de encontro profundo com a realidade sem perder o lirismo. Linda parceria, e linda foto, adorei!

Beijo.